Sobre a violência

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Com tantos atos de violência que nos cercam, como classificar uma atitude violenta? Nesta postagem vou apresentar meu ponto de vista sobre a violência e vandalismo.

Estive pensando sobre tantos e tantos comentários sobre a violência e vandalismo e talvez meu pensamento possa contribuir para a reflexão de outras pessoas.

A primeira coisa que me pergunto é: O que é violência?
A violência não pode ser considerada como qualquer agressão ao corpo. Eu posso dar inúmero exemplos de violências físicas que são positivas e que talvez as pessoas não considerem violência, mas que dificulta a classificação: uma operação cirúrgica é uma violência que traz benefícios às pessoas. Isso inclui até o parto. Sem uma certa agressão ao corpo, ninguém mais teria filhos (e muitas mulheres optam por não ter filho por causa das modificações físicas). Isso inclui também algumas cirurgias plásticas que, apesar do benefício não ser o mesmo que uma cirurgia para tirar um tumor, por exemplo, traz alívio psicológico para muitas pessoas.
Então a violência que tentamos combater tem um caráter caráter específico. Não dá para ser contra QUALQUER TIPO de violência. Eu, pelo menos, não sou.
A violência que sou contra é aquela que é contra a civilização, que tem a característica de uma agressividade primitiva, contaminada por ódio e destruição. Eu prefiro usar o termo de um autor que eu leio bastante, Theodor Adorno: BARBÁRIE.
É muito diferente de um pai que repreende uma criança, mesmo que à força, quando esta está maltratando um animal, por exemplo. Isso é uma “violência” contra a barbárie, nesse sentido, eu sou à favor. A diferença é que há um motivo consciente, racional… um propósito contra a violência.

protesto-BH

Agora vou dar minha opinião com exemplos das manifestações de São Paulo relacionadas ao aumento da passagem de ônibus:
– A pessoa que está na manifestação, reivindicando seus direitos, não há muito o que dizer, não é o caso da discussão.

– O manifestante que picha em um ônibus “R$ 3,20 é roubo”, na minha opinião, não está sendo vândalo. Para mim é muito diferente de um cara que picha seu nome no beiral de um prédio, sem um motivo consciente e racional, apenas para deixar sua marca. É diferente do primeiro que está mais do que consciente do que está escrevendo e tem uma finalidade a favor da democracia. Assim como queimar papelão no meio da rua para evitar a passagem dos carros e ganhar visibilidade das autoridades. Nas depredações, alguns realmente se excederam e deveria ser mesmo evitado, mas é isso que acontece quando há muita repressão. O Brasil já passou por isso, deveria saber.

– O policial que atira em manifestantes é um bárbaro explícito. É a violência agressiva contra a civilização… por parte de quem deveria defendê-los. Não se trata então de dizer que eu sou contra a polícia. Desculpa, não sou contra a polícia enquanto vivermos na sociedade que vivemos. Se um dia me roubarem ou me sequestrarem ou coisa do tipo (espero nunca passar por isso), tudo que eu vou querer é um policial. E sei que muitos policiais se envergonham de colegas de trabalho que fazem atos bárbaros. Eu sou psicóloga e também me envergonho de alguns colegas de classe. O que me incomoda na organização policial é seu princípio autoritário, de muitos somente responderem às ordens. Aliás, essa foi a grande desculpa dos soldados nazistas: “estar cumprindo ordens”… isso, para mim, não é admissível nem pretexto para cometer barbaridades. Acrescenta-se o fato de haver policiais sádicos: querem bater, atirar… estão loucos para mostrar alguma “força” na sua impotência.

– O cara que é “pacífico” (passivo), não assume posições, esse também está expressando a barbárie. Não me refiro à pessoa que não foi às ruas protestar com o grupo. Há muitas formas de se opor e mostrar resistência, assim como há muito oportunismo nos que estão nas ruas. A passividade que me refiro dispensa exemplos… ela é visível em muitos intolerantes à democracia. A mesma barbárie que fez com que pessoas não dissessem “não” ao nazismo é a tudo de errado que acontecia a sua volta e em muitos que ainda hoje são a favor da ditadura militar. (É fácil ser sempre mandado e não ter que pensar por mesmo no bem social).

Os exemplos relacionados ao nazismo e boa parte da minha reflexão é baseada em textos de Adorno que eu concordo e me ajudaram a organizar meus pensamentos e minha expressão que exponho sem grandes pretensões no meu perfil do Facebook para aproveitar a onda de posts legais que tenho visto.

O nazismo foi o extremo da barbárie, mas não impede que seja possível identificar características muito próximas nas manifestações – infelizmente.

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About the Author:

Karen D. M. Ferreira é psicóloga clínica, com pós-graduação em Sócio-Psicologia, mestrado em Educação e doutoranda em Psicologia Escolar e do Desenvolvimento Humano. Atualmente também colabora com pesquisas do Laboratório de Estudos Sobre o Preconceito do Instituto de Psicologia da USP, coordenado pelo profº José Leon Crochík.